É no mínimo engraçado como, de repente, a gente se torna uma pessoa totalmente diferente. O espelho me diz que eu estou velho. Velho não, experiente. Diferente. As coisas que costumavam assustar viram canções de ninar, maturidade não é mais algo a se alcançar, os relacionamentos agora me ajudam a aprender, não a confundir.
Não. Se tem alguém que eu não posso enganar sou eu mesmo. Olho pra trás e não me reconheço mais. Tudo são trevas, como se eu estivesse perdido num abismo infinito. Busquei fugir de responsabilidades, me enganar com falsas explicações, fingir que tudo estava bem. E, de tanto fugir, o tempo passa sem nem você perceber.
Outro dia tive um sonho em que eu estava enrolado em uma nuvem. Havia luz, paz. Era um ambiente paradisíaco, como se eu estivesse perfeitamente deitado no colo de Deus. As horas passavam como se fossem minutos e eu não tinha preocupação alguma. Porém, de alguma maneira, surgiu um pequeno corte na minha mão, no qual sangrava uma fumaça densa e escura. Pouco a pouco o corte foi aumentando, ao invés de sarar, e a fumaça tomou completamente o ambiente. De repente me vi imerso em mim mesmo: aquela profunda escuridão que me tomou a paz de antes era o meu interior. Caos, escuridão, inferno.
É difícil encontrar um lugar nessa imensidão de nada.
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