Molhei o rosto e fiz a espuma. Espalhei rapidamente pelo meu
rosto, fazendo uma leve massagem. Fui então, habilmente, passando a lâmina de
barbear rente a pele. Ao finalizar o meu rito diário, enxuguei minhas mãos na
surrada toalha próxima a pia. Observei por alguns instantes a bagunça que fiz
no banheiro e dei uma leve risada, lembrando como a Helena odiava quando eu
desorganizava tudo.
Arrumei os arredores da pia da mesma maneira que ela fazia
todos os dias. Peguei a toalha mais uma vez e levei-a ao meu rosto
recém-barbeado. Foi, então, que eu me deparei com o que eu preferia não notar:
as minhas mãos enrugadas. É, eu já não era o mesmo. Perceber isso é o meu “bom dia” de cada
manhã.
Como prova de coragem do meu dia, resolvi encarar meu
espelho. Uma vez na semana é o suficiente, não gosto de ficar me imaginando
essa pessoa que eu sou. Examinei com destreza a minha pele enrugada, o meu
olhar cansado e os meus cabelos brancos. Não me sinto assim, mas,
definitivamente, estou velho.
Continuei a pensar e examinar, e fui me dando conta que já
tinha há muito tempo todos os sinais da velhice, porém acabei os ignorando. Já
não conseguia andar o tanto quanto antes, já não me aventurava como fazia há 15
anos, já não mais cortejava uma guria (os jovens ainda falam assim?) como na
minha juventude. Envelheci achando que seria um eterno jovem; síndrome de Peter
Pan, meu filho disse uma vez.
Porém, no meio de tantos defeitos que listei, não percebi um
fato que estava na minha cara, literalmente: minha barba nunca esteve tão bem
feita. Quando vi isso, imediatamente lembrei-me da primeira vez que tive que
manusear uma lâmina de barbear. Mas que tragédia! Se minha memória já não
estiver falhando, foram, no mínimo, três cortes. Depois dessa lição, nunca mais
me aventurei a fazer aquilo sozinho sem que antes aprendesse como.
Papai, que Deus o tenha consigo no céu, me ensinou a
preparar a espuma, a lâmina e o meu rosto, como evitar os cortes e também o que
fazer após o barbear. E, a partir daí, só foi preciso prática, até eu me tornar
o “profissional”, modéstia à parte, que sou hoje.
Assim como o barbear, foram todas as minhas experiências na
vida. No início, guiado pela imaturidade de quem está ganhando os primeiros
fios de barba, fui fundo em várias situações e, em outras, não soube nem como
lidar. Isso me causou um bocado de dolorosos cortes, como os que eu fiz ao me
barbear pela primeira vez. Com o tempo, fui aprendendo a sarar esses cortes e
amadurecendo para evitar que acontecessem outra vez, deixando, assim, a dor pra
trás.
Percebi que não é tão ruim assim estar velho. Sinto-me
amadurecido por completo e pronto pra dar conselhos aos meus netos. Eu sei que
eles não vão me ouvir algumas vezes, mas é aí que está a beleza da vida:
cortar-se, algumas vezes, pra perceber que aquilo não era o certo e aprender
para acertar na próxima vez. Até porque não é na primeira vez que se consegue
um barbear perfeito.

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