segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Barbear perfeito


Molhei o rosto e fiz a espuma. Espalhei rapidamente pelo meu rosto, fazendo uma leve massagem. Fui então, habilmente, passando a lâmina de barbear rente a pele. Ao finalizar o meu rito diário, enxuguei minhas mãos na surrada toalha próxima a pia. Observei por alguns instantes a bagunça que fiz no banheiro e dei uma leve risada, lembrando como a Helena odiava quando eu desorganizava tudo. 

Arrumei os arredores da pia da mesma maneira que ela fazia todos os dias. Peguei a toalha mais uma vez e levei-a ao meu rosto recém-barbeado. Foi, então, que eu me deparei com o que eu preferia não notar: as minhas mãos enrugadas. É, eu já não era o mesmo.  Perceber isso é o meu “bom dia” de cada manhã.
Como prova de coragem do meu dia, resolvi encarar meu espelho. Uma vez na semana é o suficiente, não gosto de ficar me imaginando essa pessoa que eu sou. Examinei com destreza a minha pele enrugada, o meu olhar cansado e os meus cabelos brancos. Não me sinto assim, mas, definitivamente, estou velho.
Continuei a pensar e examinar, e fui me dando conta que já tinha há muito tempo todos os sinais da velhice, porém acabei os ignorando. Já não conseguia andar o tanto quanto antes, já não me aventurava como fazia há 15 anos, já não mais cortejava uma guria (os jovens ainda falam assim?) como na minha juventude. Envelheci achando que seria um eterno jovem; síndrome de Peter Pan, meu filho disse uma vez.
Porém, no meio de tantos defeitos que listei, não percebi um fato que estava na minha cara, literalmente: minha barba nunca esteve tão bem feita. Quando vi isso, imediatamente lembrei-me da primeira vez que tive que manusear uma lâmina de barbear. Mas que tragédia! Se minha memória já não estiver falhando, foram, no mínimo, três cortes. Depois dessa lição, nunca mais me aventurei a fazer aquilo sozinho sem que antes aprendesse como.
Papai, que Deus o tenha consigo no céu, me ensinou a preparar a espuma, a lâmina e o meu rosto, como evitar os cortes e também o que fazer após o barbear. E, a partir daí, só foi preciso prática, até eu me tornar o “profissional”, modéstia à parte, que sou hoje.
Assim como o barbear, foram todas as minhas experiências na vida. No início, guiado pela imaturidade de quem está ganhando os primeiros fios de barba, fui fundo em várias situações e, em outras, não soube nem como lidar. Isso me causou um bocado de dolorosos cortes, como os que eu fiz ao me barbear pela primeira vez. Com o tempo, fui aprendendo a sarar esses cortes e amadurecendo para evitar que acontecessem outra vez, deixando, assim, a dor pra trás.
Percebi que não é tão ruim assim estar velho. Sinto-me amadurecido por completo e pronto pra dar conselhos aos meus netos. Eu sei que eles não vão me ouvir algumas vezes, mas é aí que está a beleza da vida: cortar-se, algumas vezes, pra perceber que aquilo não era o certo e aprender para acertar na próxima vez. Até porque não é na primeira vez que se consegue um barbear perfeito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário