segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Não vale a pena


A velha cabana no mesmo lugar
A velha estante no mesmo lugar
O sol a pino
E o entregador a suar.

Quando surge, ainda longe
Esguia e borrada silhueta
Lutando contra a fúria das areias
O deserto a desbravar.

Enquanto se aproxima
Os prêmios se exaltam
O entregador os acalma:
“A sua hora vai chegar.”

Chega, observa com atenção
Aponta, escolhe e leva
E o solitário prêmio, no canto, pensa:
“A minha hora nunca vai chegar.”

O entregador percebe o que se passa
Hesita, mas acaba perguntando:
“Pra que tanta tristeza, prêmio?
Não achas que tua hora vai chegar?”

“Ele me esqueceu, estou preso
Na minha solidão e tristeza.
Não devo, mas quero desistir.
É uma batalha que não quero enfrentar.”

“Então porque não vais dar uma volta, tomar um ar?
Te divertes um pouco e, quem sabe lá, tu aches 
Ele ou alguém que, por enquanto,
Tuas tristezas há de mascarar.”

“Não vale a pena, entregador, minhas tristezas mascarar
Se eu sei (e como sei) que após a felicidade
Esse alguém não terá fidelidade
E a ti me devolverá.”

“Então tenhas um pouco de paciência, prêmio
Espera o ganhador certo
Que na hora certa vai vir te buscar
E não precisarás acabar que nem eu.”

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