terça-feira, 19 de março de 2013

Céu.

  É no mínimo engraçado como, de repente, a gente se torna uma pessoa totalmente diferente. O espelho me diz que eu estou velho. Velho não, experiente. Diferente. As coisas que costumavam assustar viram canções de ninar, maturidade não é mais algo a se alcançar, os relacionamentos agora me ajudam a aprender, não a confundir.
  Não. Se tem alguém que eu não posso enganar sou eu mesmo. Olho pra trás e não me reconheço mais. Tudo são trevas, como se eu estivesse perdido num abismo infinito. Busquei fugir de responsabilidades, me enganar com falsas explicações, fingir que tudo estava bem. E, de tanto fugir, o tempo passa sem nem você perceber.
  Outro dia tive um sonho em que eu estava enrolado em uma nuvem. Havia luz, paz. Era um ambiente paradisíaco, como se eu estivesse perfeitamente deitado no colo de Deus. As horas passavam como se fossem minutos e eu não tinha preocupação alguma. Porém, de alguma maneira, surgiu um pequeno corte na minha mão, no qual sangrava uma fumaça densa e escura. Pouco a pouco o corte foi aumentando, ao invés de sarar, e a fumaça tomou completamente o ambiente. De repente me vi imerso em mim mesmo: aquela profunda escuridão que me tomou a paz de antes era o meu interior. Caos, escuridão, inferno.
  É difícil encontrar um lugar nessa imensidão de nada.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Barbear perfeito


Molhei o rosto e fiz a espuma. Espalhei rapidamente pelo meu rosto, fazendo uma leve massagem. Fui então, habilmente, passando a lâmina de barbear rente a pele. Ao finalizar o meu rito diário, enxuguei minhas mãos na surrada toalha próxima a pia. Observei por alguns instantes a bagunça que fiz no banheiro e dei uma leve risada, lembrando como a Helena odiava quando eu desorganizava tudo. 

Arrumei os arredores da pia da mesma maneira que ela fazia todos os dias. Peguei a toalha mais uma vez e levei-a ao meu rosto recém-barbeado. Foi, então, que eu me deparei com o que eu preferia não notar: as minhas mãos enrugadas. É, eu já não era o mesmo.  Perceber isso é o meu “bom dia” de cada manhã.
Como prova de coragem do meu dia, resolvi encarar meu espelho. Uma vez na semana é o suficiente, não gosto de ficar me imaginando essa pessoa que eu sou. Examinei com destreza a minha pele enrugada, o meu olhar cansado e os meus cabelos brancos. Não me sinto assim, mas, definitivamente, estou velho.
Continuei a pensar e examinar, e fui me dando conta que já tinha há muito tempo todos os sinais da velhice, porém acabei os ignorando. Já não conseguia andar o tanto quanto antes, já não me aventurava como fazia há 15 anos, já não mais cortejava uma guria (os jovens ainda falam assim?) como na minha juventude. Envelheci achando que seria um eterno jovem; síndrome de Peter Pan, meu filho disse uma vez.
Porém, no meio de tantos defeitos que listei, não percebi um fato que estava na minha cara, literalmente: minha barba nunca esteve tão bem feita. Quando vi isso, imediatamente lembrei-me da primeira vez que tive que manusear uma lâmina de barbear. Mas que tragédia! Se minha memória já não estiver falhando, foram, no mínimo, três cortes. Depois dessa lição, nunca mais me aventurei a fazer aquilo sozinho sem que antes aprendesse como.
Papai, que Deus o tenha consigo no céu, me ensinou a preparar a espuma, a lâmina e o meu rosto, como evitar os cortes e também o que fazer após o barbear. E, a partir daí, só foi preciso prática, até eu me tornar o “profissional”, modéstia à parte, que sou hoje.
Assim como o barbear, foram todas as minhas experiências na vida. No início, guiado pela imaturidade de quem está ganhando os primeiros fios de barba, fui fundo em várias situações e, em outras, não soube nem como lidar. Isso me causou um bocado de dolorosos cortes, como os que eu fiz ao me barbear pela primeira vez. Com o tempo, fui aprendendo a sarar esses cortes e amadurecendo para evitar que acontecessem outra vez, deixando, assim, a dor pra trás.
Percebi que não é tão ruim assim estar velho. Sinto-me amadurecido por completo e pronto pra dar conselhos aos meus netos. Eu sei que eles não vão me ouvir algumas vezes, mas é aí que está a beleza da vida: cortar-se, algumas vezes, pra perceber que aquilo não era o certo e aprender para acertar na próxima vez. Até porque não é na primeira vez que se consegue um barbear perfeito.

Não vale a pena


A velha cabana no mesmo lugar
A velha estante no mesmo lugar
O sol a pino
E o entregador a suar.

Quando surge, ainda longe
Esguia e borrada silhueta
Lutando contra a fúria das areias
O deserto a desbravar.

Enquanto se aproxima
Os prêmios se exaltam
O entregador os acalma:
“A sua hora vai chegar.”

Chega, observa com atenção
Aponta, escolhe e leva
E o solitário prêmio, no canto, pensa:
“A minha hora nunca vai chegar.”

O entregador percebe o que se passa
Hesita, mas acaba perguntando:
“Pra que tanta tristeza, prêmio?
Não achas que tua hora vai chegar?”

“Ele me esqueceu, estou preso
Na minha solidão e tristeza.
Não devo, mas quero desistir.
É uma batalha que não quero enfrentar.”

“Então porque não vais dar uma volta, tomar um ar?
Te divertes um pouco e, quem sabe lá, tu aches 
Ele ou alguém que, por enquanto,
Tuas tristezas há de mascarar.”

“Não vale a pena, entregador, minhas tristezas mascarar
Se eu sei (e como sei) que após a felicidade
Esse alguém não terá fidelidade
E a ti me devolverá.”

“Então tenhas um pouco de paciência, prêmio
Espera o ganhador certo
Que na hora certa vai vir te buscar
E não precisarás acabar que nem eu.”

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Aos que amei


E lá estava. Imóvel, parecia ainda estar em choque. Eu observava a cena de longe, sentado à mesa de um pequeno restaurante de esquina, tomando suco de laranja recém preparado. Nos lábios dela ainda havia resquícios do batom vermelho que usara na noite passada. Algumas leves manchas negras próximas aos olhos denunciavam as lágrimas negras, coloridas pelo rímel, que ela chorou após receber a notícia. O painel gráfico, estilo pop art, posicionado atrás dela, vermelho como seus lábios, fazia uma intertextualização com a sua dor.
É fato que eu sou (ainda) jovem demais para entender. É um fato também que eu já havia passado por tal situação. Mergulhei na imensidão dos meus pensamentos por alguns instantes, relembrando dolorosas cenas do meu passado. Quando tornei a voltar minha atenção àquela jovem senhora, percebi que ela já estava, provavelmente, fumando o terceiro cigarro seguido. Digo isso porque conheço o quanto ela resiste à sua antiga tentação e os truques que ela utiliza para isso. Um bombom ao final do primeiro cigarro, para não te vontade de ir pro segundo, já que ela tentava há seis meses parar de fumar em definitivo. Em suas mãos já se acumulavam duas embalagens, meio amassadas, do bombom que a ajudava.
Eu assisti a tudo que aconteceu na noite passada.  Cada segundo vai ficar gravado na minha mente. Talvez sirva quando eu for depor sobre o acontecido pra alguma dupla de investigadores brutos. Talvez eu não fale nada só pra saber se é verdade que eles te colocam numa sala escura, só com um foco de luz, e te dão umas pancadas até você abrir a boca e falar algo de útil, como acontece nos filmes. Talvez eu seja tão inútil e “invisível” que ninguém notou a minha presença na noite passada e eu não seja chamado pra falar sobre o assunto.
Claro que eu fui notado. Senão seria estúpido da parte das pessoas que compareceram não terem me notado. Porém, mamãe sempre me dizia: “A estupidez humana não tem fim.”. É, eu sei que não tem, mãe. Era meu aniversário. Balões por toda parte, um colorido sem fim. Estava fazendo 18 anos, mas pra minha mãe eu serei uma eterna criança. A alegre música que tocava foi interrompida por alguns gritos no fundo da casa. Homem ao chão.
Eu ainda tinha um fio de esperança. Eu rezava pra não ouvir o que eu iria ouvir. Não estava preparado pra viver tudo aquilo de novo. Seis anos atrás perdi meu avô, uma maravilhosa pessoa que eu era muito próximo. Quando o homem de branco chegou à sala onde estava eu e a senhora que, momentos depois, estava na parte de fora do hospital e que eu observei, veio nos dar a notícia já esperada por ambos. Saí correndo, como se pudesse voltar no tempo ao abrir a porta da frente do hospital e evitar que tudo aquilo pudesse ter acontecido, como se Deus fosse me dar uma chance de não sofrer. Porém, sei que não é assim que a vida funciona. Entrei em um restaurante na esquina do restaurante e pedi um suco de laranja.
A jovem senhora de batom é minha mãe. Espero que seja tu, mãe, que esteja lendo isso nesse momento. Sei que tu estavas preocupada com a morte do papai e ainda mais comigo, por eu ter desaparecido após ter recebido a notícia que me derrubou naquela fatídica noite. É que eu sei que eu não podia ir embora sem te deixar isso. Não podia partir simplesmente deixando a senhora chegar a pensar que eu fui por não te amar. É exatamente por isso que eu estou indo. Não ia conseguir superar mais outra dor. Ia apenas te dar, impiedosamente, mais uma cruz pra tu carregar. Vejo que ir embora é o melhor jeito de aliviar as tuas cansadas costas. O cianureto não vai me desfigurar, assim tu poderás lembrar-se de mim com alegria. Deixe o caixão aberto, eu quero poder olhar mais uma vez os que eu amei e estão ficando.
Com amor, Esteban.

Pois é


De repente um furacão, brianstorm de emoções. De repente uma notícia que eu teimava em não querer receber. Em não querer acreditar. Ah, que bobo. A verdade é que a vida é assim, essa grande estação, aonde uns chegam e alguns ficam enquanto não acham seu rumo, enquanto o seu trem não chega. E outros partem. Partem porque chegou a sua hora, e eles sabem quando sentem o cheiro da fumaça que vem do trem que ainda desponta longe, lá das longínquas colinas encobertas pelas nuvens negras e pesadas que teimam em derramar lágrimas pelo iminente partir. Clareia a minha vida, amor?
E a vida torna-se um eterno chover. Pingos ao chão até o momento em que o pé do novo aventureiro toca o trem, que o leva para longe, para o seu novo destino. Tantas idas, tantas vindas, partidas e chegadas, lágrimas e alegrias. E o conforto é saber que é de Deus tudo aquilo que não se pode ver. O trem pode ter chegado, a pessoa querida partido, mas o maquinista sabe o que faz. Mas o coração, que teima em bater, sente, sofre, pulsa angustiado. Deixa o amanhã e a gente sorri, porque o coração já quer descansar.
Pois é, não deu. Por enquanto, espero. 

Small white room


Estava flutuando ou simplesmente enlouquecendo. Quando finalmente pousei, só queria descansar e tentar me restabelecer. Algum tempo depois tentei abrir os olhos, mas tudo estava muito claro e, quando a luz penetrou a minha córnea, senti uma grande dor de cabeça.
Quando percebi que tinha me acostumado um pouco mais com aquele ambiente fortemente iluminado em que estava, fui abrindo os olhos lentamente, até deixá-los completamente abertos. A dor ainda era grande e me fazia pensar que minha cabeça poderia explodir a qualquer momento. Reconheci rapidamente aquele ambiente, porque já tinha o visto representado várias vezes em filmes. Eu estava em um quarto de hospício. Senti-me sufocado naquele espaço tão reduzido e totalmente branco. Ainda meio confuso, o meu único pensamento foi dormir para depois, mais lúcido, procurar uma solução pra situação em que me encontrava.
Acordei, mais uma vez. Agora totalmente estável e quase sem nenhuma dor. Ouvia passos no corredor. Ouvia gritos que, de tão altos, ultrapassavam as paredes estofadas do meu quarto branco. Levantei, dei uma pequena volta pra reconhecer o ambiente e voltei a me deitar. Eu me sentia bem, e fiquei tentando adivinhar o porquê de eu estar naquele hospício. Após mais alguns pensamentos aleatórios, parei um pouco ao perceber que as paredes do quarto começaram a mudar de cor.
As paredes foram, pouco a pouco, transformando-se no meu maior medo.  Fiquei assustado. Ninguém gosta de lembrar qual é o seu maior medo. Ninguém gosta de encarar o seu maior medo. Quando olhei para a porta e pensei na possibilidade de tentar fugir, elas trancaram-se rapidamente.
Ele avançava contra mim sem o menor pudor, e eu não tinha pra onde fugir. Tentei avançar contra ele, mas estava de mãos atadas. Lutei contra as algemas violentamente, mas sem sucesso. Eu só me machucava mais e mais a cada frustrada tentativa. E aquela risada histérica rasgava meus tímpanos e enlouquecia minha cabeça. Eu me debatia cada vez mais forte e novamente sem sucesso. Caí. Minhas forças se esgotaram.
E ali eu estava caído no chão, com as marcas de guerra nos braços. Nesse exato momento percebi porque não estava nada bem. Estava louco. Louco por estar preso no meu próprio medo. Louco por não conseguir mais aproveitar a minha vida e por não conseguir mais ser feliz, porque o meu maior medo poderia aparecer a qualquer momento e me fazer triste novamente. Louco por não conseguir mais conviver com os outros, porque o meu medo fazia eu me sentir vulnerável.  
O medo enlouquece, é imprevisível. É preciso muita coragem para não se esconder nos arrependimentos, amar-se, lutar e, assim, ser feliz novamente. Preciso aprender, preciso ter toda essa coragem.

Sobre dores e risos



Sabe quando aquela pele do dedo que solta e a gente tenta puxar, só que quando puxa demais acaba machucando e dando aquela dor desgraçada? Pois é, considero essa a maior dor que eu já senti em toda a minha vida. E ainda me perguntam por que eu admiro tanto as mulheres, que doam seus corpos pra gerar vidas, mesmo sabendo das dores e complicações que elas estão sujeitas em todo o processo.
Parabéns por todo mês sangrarem e ainda conseguirem (não é a maioria, mas eu entendo que é culpa da TPM) colocar um sorriso no rosto, pelos seus doces sorrisos e histéricas risadas, por não perderem a postura mesmo em cima de um salto 15, por serem lindas sem precisar de maquiagem. Parabéns pelas vozes que saem das suas bocas e transformam-se em verdadeiras cócegas pros nossos ouvidos, pelo seu jeito peculiar de tirar o cabelo do rosto que encanta qualquer um, pelas suas curvas que hipnotizam, e parabéns até pelos quilos a mais, porque eles mostram que você é, acima de tudo, real. Enfim, parabéns por existirem, porque sem vocês não haveriam homens felizes, mas só e tão somente homens.