sexta-feira, 20 de julho de 2012

Aos que amei


E lá estava. Imóvel, parecia ainda estar em choque. Eu observava a cena de longe, sentado à mesa de um pequeno restaurante de esquina, tomando suco de laranja recém preparado. Nos lábios dela ainda havia resquícios do batom vermelho que usara na noite passada. Algumas leves manchas negras próximas aos olhos denunciavam as lágrimas negras, coloridas pelo rímel, que ela chorou após receber a notícia. O painel gráfico, estilo pop art, posicionado atrás dela, vermelho como seus lábios, fazia uma intertextualização com a sua dor.
É fato que eu sou (ainda) jovem demais para entender. É um fato também que eu já havia passado por tal situação. Mergulhei na imensidão dos meus pensamentos por alguns instantes, relembrando dolorosas cenas do meu passado. Quando tornei a voltar minha atenção àquela jovem senhora, percebi que ela já estava, provavelmente, fumando o terceiro cigarro seguido. Digo isso porque conheço o quanto ela resiste à sua antiga tentação e os truques que ela utiliza para isso. Um bombom ao final do primeiro cigarro, para não te vontade de ir pro segundo, já que ela tentava há seis meses parar de fumar em definitivo. Em suas mãos já se acumulavam duas embalagens, meio amassadas, do bombom que a ajudava.
Eu assisti a tudo que aconteceu na noite passada.  Cada segundo vai ficar gravado na minha mente. Talvez sirva quando eu for depor sobre o acontecido pra alguma dupla de investigadores brutos. Talvez eu não fale nada só pra saber se é verdade que eles te colocam numa sala escura, só com um foco de luz, e te dão umas pancadas até você abrir a boca e falar algo de útil, como acontece nos filmes. Talvez eu seja tão inútil e “invisível” que ninguém notou a minha presença na noite passada e eu não seja chamado pra falar sobre o assunto.
Claro que eu fui notado. Senão seria estúpido da parte das pessoas que compareceram não terem me notado. Porém, mamãe sempre me dizia: “A estupidez humana não tem fim.”. É, eu sei que não tem, mãe. Era meu aniversário. Balões por toda parte, um colorido sem fim. Estava fazendo 18 anos, mas pra minha mãe eu serei uma eterna criança. A alegre música que tocava foi interrompida por alguns gritos no fundo da casa. Homem ao chão.
Eu ainda tinha um fio de esperança. Eu rezava pra não ouvir o que eu iria ouvir. Não estava preparado pra viver tudo aquilo de novo. Seis anos atrás perdi meu avô, uma maravilhosa pessoa que eu era muito próximo. Quando o homem de branco chegou à sala onde estava eu e a senhora que, momentos depois, estava na parte de fora do hospital e que eu observei, veio nos dar a notícia já esperada por ambos. Saí correndo, como se pudesse voltar no tempo ao abrir a porta da frente do hospital e evitar que tudo aquilo pudesse ter acontecido, como se Deus fosse me dar uma chance de não sofrer. Porém, sei que não é assim que a vida funciona. Entrei em um restaurante na esquina do restaurante e pedi um suco de laranja.
A jovem senhora de batom é minha mãe. Espero que seja tu, mãe, que esteja lendo isso nesse momento. Sei que tu estavas preocupada com a morte do papai e ainda mais comigo, por eu ter desaparecido após ter recebido a notícia que me derrubou naquela fatídica noite. É que eu sei que eu não podia ir embora sem te deixar isso. Não podia partir simplesmente deixando a senhora chegar a pensar que eu fui por não te amar. É exatamente por isso que eu estou indo. Não ia conseguir superar mais outra dor. Ia apenas te dar, impiedosamente, mais uma cruz pra tu carregar. Vejo que ir embora é o melhor jeito de aliviar as tuas cansadas costas. O cianureto não vai me desfigurar, assim tu poderás lembrar-se de mim com alegria. Deixe o caixão aberto, eu quero poder olhar mais uma vez os que eu amei e estão ficando.
Com amor, Esteban.

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